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Em março de 2026, autoridades chinesas detectaram cloranfenicol — um antibiótico proibido — num contentor de carne bovina proveniente da Argentina. A carga, com cerca de 22 toneladas, levou à suspensão imediata das exportações da planta envolvida e ao início de uma investigação completa de rastreabilidade.
Independentemente da causa, este caso traz à discussão um ponto crítico: estamos dando a devida atenção aos perigos químicos nos nossos sistemas APPCC?
O que este caso nos mostra
Casos como este demonstram como um único resultado analítico pode ter impacto imediato e significativo. A suspensão de exportações, mesmo que temporária, afeta diretamente a confiança dos mercados internacionais, a reputação da empresa e a estabilidade da cadeia de fornecimento.
Mostra também a importância de sistemas de rastreabilidade eficazes. A capacidade de identificar rapidamente a origem do problema — seja ele real ou um falso positivo — é determinante para a tomada de decisão e para a credibilidade perante autoridades e clientes.
O que é o cloranfenicol e por que é proibido
O cloranfenicol é um antibiótico de amplo espectro que foi amplamente utilizado na medicina veterinária no passado. No entanto, estudos demonstraram a sua associação a efeitos adversos graves em humanos, nomeadamente distúrbios hematológicos como a anemia aplástica — uma condição rara, mas potencialmente fatal, em que a medula óssea deixa de produzir células sanguíneas em quantidade suficiente. Em razão destes riscos, o seu uso em animais destinados ao consumo humano foi proibido em praticamente todos os mercados internacionais há mais de três décadas.
Do ponto de vista da segurança dos alimentos, trata-se de uma substância particularmente crítica. Não existe limite máximo de resíduos estabelecido, sendo aplicada uma política de tolerância zero. ou seja, a sua detecção, mesmo em quantidades mínimas, é suficiente para rejeição do produto.
Perigos químicos no APPCC: o parente esquecido?
Quando falamos em perigos no âmbito do APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle), é comum que o foco recaia sobre dois grandes grupos: perigos microbiológicos e físicos. São mais intuitivos, mais visíveis e, muitas vezes, mais fáceis de controlar no dia a dia.
Os perigos químicos, por outro lado, tendem a ficar em segundo plano. No entanto, estão presentes em várias etapas do processo e podem assumir diferentes formas, como:
- Resíduos de medicamentos veterinários, como antibióticos;
- Pesticidas em matérias-primas;
- Contaminação por produtos de limpeza e desinfeção;
- Lubrificantes industriais;
- Migração de substâncias provenientes de embalagens.
A sua presença nem sempre é evidente, mas o impacto pode ser tão — ou mais — significativo do que outros tipos de perigo.
Por que os perigos químicos são mais difíceis de gerir?
Ao contrário de um corpo estranho ou de um crescimento microbiológico visível, os perigos químicos são, na maioria dos casos, invisíveis.
A sua detecção depende de análises laboratoriais específicas, muitas vezes com limites de quantificação baixos e metodologias complexas. Além disso, podem ter origem externa, nomeadamente ao nível dos fornecedores, o que aumenta a dificuldade de controlo direto.
A variabilidade também é um fator crítico. Um mesmo fornecedor pode apresentar resultados distintos entre lotes, e pequenas falhas podem passar despercebidas até serem detetadas num controle oficial ou numa exportação.
Tudo isto exige uma abordagem mais estratégica, baseada em avaliação de risco, validação de fornecedores e monitorização contínua.
O risco real: muito além da não conformidade
Quando um perigo químico é identificado, as consequências vão muito além de uma simples não conformidade. Podem incluir:
- Bloqueio de exportações;
- Rejeição de lotes;
- Recall de produtos;
- Impacto direto na reputação da marca;
- Perda de confiança por parte de clientes e autoridades.
Em mercados internacionais, onde os requisitos são cada vez mais exigentes, a presença de substâncias proibidas pode comprometer relações comerciais construídas ao longo de anos.
Estamos olhando para o APPCC de forma equilibrada?
Este tipo de situação leva a uma reflexão importante: será que os nossos planos APPCC estão realmente equilibrados?
Estamos, muitas vezes, muito bem preparados para controlar perigos microbiológicos e físicos. Mas será que investimos o mesmo nível de atenção na identificação, avaliação e monitorização dos perigos químicos?
Ou estaremos, em alguns casos, assumindo que o controle destes perigos está garantido a priori — especialmente quando depende de fornecedores?
Como já abordado no artigo “Cultura de segurança dos alimentos: o elo invisível que protege a cadeia produtiva”, a eficácia de um sistema não depende apenas dos procedimentos definidos, mas da forma como os riscos são compreendidos e geridos na prática.
Em síntese, os perigos químicos são, muitas vezes, menos visíveis — mas não menos críticos.
Casos como este demonstram que uma única ocorrência pode ter impacto significativo em toda a cadeia alimentar, desde a produção até ao mercado final.
Garantir a segurança dos alimentos implica olhar para todos os perigos com o mesmo nível de rigor. E isso inclui reforçar a atenção dada aos contaminantes químicos, investir na avaliação de risco e garantir um controle efetivo ao longo de toda a cadeia de abastecimento.
Porque, no final, a segurança dos alimentos não falha apenas quando algo é visível — falha, muitas vezes, quando não olhamos para onde devíamos.
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A segurança dos alimentos no espaço não nasceu como diferencial competitivo ou requisito regulatório, mas como condição de sobrevivência.
Em microgravidade, o comportamento físico dos alimentos se altera: líquidos formam esferas flutuantes, partículas sólidas permanecem suspensas, migalhas podem penetrar em equipamentos sensíveis. Paralelamente, qualquer falha microbiológica assume proporções amplificadas, pois não há retaguarda hospitalar nem possibilidade imediata de evacuação.
Por isso, no início do Project Mercury (1958–1963), a alimentação deixou de ser apenas questão nutricional e passou a integrar o sistema crítico de suporte à vida.
No ambiente espacial, um risco alimentar pode levar missões ao fracasso.
Na missão orbital de John Glenn, em 1962, os alimentos foram desenvolvidos com foco simultâneo em engenharia, microbiologia e controle físico. Utilizaram-se purês acondicionados em tubos de alumínio e cubos desidratados revestidos com película comestível para evitar a formação de partículas dispersas.
O desafio era duplo: assegurar ingestão segura em microgravidade e garantir controle microbiológico absoluto. Além disso, uma intoxicação alimentar em órbita representaria não apenas comprometimento individual, mas potencial falha de missão.
Sem redundância médica e sem margem operacional, é preciso ter segurança total ou será um fracasso.
Com o avanço para o programa Apollo, a NASA reconheceu que métodos tradicionais de inspeção final eram insuficientes, foi então que decidiram que era necessário migrar de um modelo reativo para uma abordagem preventiva e baseada em análise de risco.
A agência contratou a Pillsbury Company, que, em parceria com os laboratórios do exército dos EUA em Natick, adaptou o conceito de FMEA (Failure Mode and Effects Analysis), originalmente aplicado na engenharia aeroespacial para antecipar falhas críticas, ao sistema produtivo de alimentos.
Desse processo emergiu o HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Points), apresentado publicamente em 1971. Com esta metodologia, pela primeira vez, a segurança dos alimentos era estruturada como sistema formal de gestão de riscos.
O modelo estabeleceu fundamentos que hoje são universais: identificação sistemática de perigos biológicos, químicos e físicos; determinação de pontos críticos de controle; definição de limites críticos mensuráveis; monitoramento contínuo; ações corretivas documentadas em casos de desvio nos pontos críticos; verificação e rastreabilidade.
Não basta testar o produto, é preciso dominar o processo.
Durante as missões Apollo (1968–1972), consolidaram-se tecnologias que uniam estabilidade e inocuidade.
A liofilização, técnica com remoção de água por sublimação sob vácuo, reduzia drasticamente a atividade de água (aw), inibindo crescimento microbiano e preservando nutrientes sensíveis ao calor, enquanto a termoestabilização, por sua vez, aplicava tratamento térmico validado por parâmetros como valor Fo, assegurando esterilidade comercial.
A reidratação era realizada com água aquecida a bordo, em embalagens hermeticamente seladas, minimizando riscos de contaminação cruzada. Cada lote era submetido a análises microbiológicas rigorosas antes da liberação.
Nesse contexto, já se delineavam princípios que hoje associamos também à Food Defense: controle de acesso, rastreabilidade integral de ingredientes, cadeias logísticas monitoradas e análise de vulnerabilidades.
Em um programa estratégico como o espacial, a contaminação intencional, embora improvável, era tratada como risco crítico.
Segurança dos alimentos tornou-se também proteção contra ameaças deliberadas.
No programa Space Shuttle (1981–2011), a ampliação da capacidade de carga permitiu diversificar o cardápio e sofisticar o controle tecnológico.
Foram introduzidas embalagens multicamadas com alta barreira a oxigênio e vapor d’água, controle rigoroso de pH e atividade de água, validações extensivas de vida de prateleira e testes sensoriais estruturados com os próprios astronautas.
A segurança passou a integrar três dimensões inseparáveis: Inocuidade microbiológica; Estabilidade físico-química; e Confiabilidade do sistema produtivo.
Esse avanço dialoga diretamente com modelos contemporâneos de gestão integrada de riscos, nos quais HACCP, Food Defense e rastreabilidade compõem camadas complementares de proteção.
Atualmente, na International Space Station, a estratégia de segurança dos alimentos apoia-se em três pilares tecnológicos interdependentes:
- Liofilização – Preserva estrutura celular e nutrientes por remoção de água sob vácuo, reduzindo a atividade de água e aumentando estabilidade microbiológica sem necessidade de refrigeração;
- Termoestabilização – tratamento térmico validado por parâmetros cinéticos, garantindo destruição de patógenos e estabilidade prolongada;
- Irradiação ionizante – aplicada principalmente a carnes, utiliza radiação gama ou feixes de elétrons para reduzir carga microbiana sem elevação significativa de temperatura, mantendo características sensoriais.
Cada lote passa por análises microbiológicas, testes de estabilidade, validação documental do plano HACCP e verificação de integridade de embalagem antes do envio ao espaço.
O controle inclui auditorias, rastreabilidade completa e avaliação de vulnerabilidades, elementos centrais também em programas modernos de Food Defense.
Paralelamente, experimentos de cultivo em microgravidade investigam produção de folhas verdes em módulos controlados. Além da segurança microbiológica, avaliam-se impactos psicológicos e operacionais do consumo de alimentos frescos em missões prolongadas.
Para futuras bases lunares e missões a Marte, estudam-se sistemas integrados de produção vegetal, reaproveitamento de água, reciclagem de nutrientes e ciclos fechados de suporte de vida.
Nesses cenários, a gestão de risco alimentar deixa de ser apenas controle de perigos e passa a integrar sustentabilidade, biossegurança e proteção contra ameaças externas.
O espaço exigiu perfeição técnica, com isso, a indústria aprendeu prevenção sistêmica.
O HACCP, concebido para proteger astronautas em ambiente extremo, tornou-se referência regulatória global, e paralelamente evoluíram conceitos de Food Defense, gestão de vulnerabilidades e análise integrada de riscos, hoje incorporados por agências reguladoras e sistemas internacionais de certificação.
A corrida espacial não apenas levou o ser humano à Lua, ela redefiniu, de maneira estrutural, os fundamentos da segurança dos alimentos na Terra. Transformou inspeção em prevenção, controle em gestão de risco e consolidou o alimento como variável estratégica dentro de sistemas complexos de segurança operacional.
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FSSC 22000 versão 7 em foco: Atualizações que transformam
Estamos nos preparando para mais uma edição do nosso tradicional Meeting, e queremos contar com você para tornar este encontro ainda mais especial.
A versão 7 do esquema FSSC 22000 está prevista para ser publicada no início de maio de 2026, com foco no alinhamento com a nova série ISO 22002-x:2025 (PRPs) e requisitos GFSI 2024. A atualização trará maior foco em sustentabilidade, segurança de alimentos e categorias de produtos, incluindo um período de transição de 12 meses.
Principais mudanças esperadas na Versão 7
- Publicação e transição: Lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026, com início das auditorias obrigatórias em 2027.
- Alinhamento técnico: Incorporação da nova série ISO 22002-x:2025 para Programas de Pré-requisitos (PPRs).
- Sustentabilidade e ESG: Maior integração de metas de sustentabilidade, como desperdício de alimentos, redução de impacto ambiental e cadeias de suprimentos responsáveis.
- Requisitos Adicionais: Atualizações em gestão de alergênicos, cultura de segurança de alimentos, controle de qualidade e gestão de equipamentos.
- Foco GFSI: Alinhamento com os novos requisitos de benchmarking da Global Food Safety Initiative (GFSI) v2024.
No Meeting discutiremos:
- O que mudou na v.7: Principais atualizações e novidades em relação à versão anterior;
- Impacto na certificação: O que as empresas já certificadas precisam revisar e adequar;
- Desafios da transição: Prazos, gaps mais comuns e pontos de atenção na implementação;
- Boas práticas e cases: Experiências reais de adequação à nova versão na indústria brasileira.
Portanto, não fique de fora desse rico aprendizado e participe do 18° Meeting online do Food Safety Brazil, no dia 11 de maio às 19h. Para se inscrever, clique nesse link e reserve a data na sua agenda. A participação é gratuita, mas não deixe para a última hora, pois as vagas são limitadas.
Nessa edição estarão conosco a Ana Pelegrino, Diretora de Desenvolvimento Técnico na QIMA, Cintia Malagutti, colunista e membro da diretoria do Food Safety Brazil, que atua como instrutora, auditora e consultora e Juliane Dias, consultora, colunista e fundadora do Food Safety Brazil e gestora de Relacionamento.
O encontro será uma oportunidade para conhecermos essa atualização, com uma palestra inicial e depois teremos uma mesa redonda para conversar e discutir sobre o tema, com espaço para as dúvidas dos participantes.
Aproveite essa oportunidade para agregar ainda mais valor à sua jornada. O Food Safety Brasil é seu parceiro.
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Em 1º de maio de 2026 (fresquinha) a tão esperada versão 7 do esquema FSSC 22.000 foi publicada na homepage da fundação (veja aqui). Trazemos aqui as principais mudanças da FSSC 22000 V7 para suas atualizações, e os principais fatores que impulsionaram a nova versão:
• Incorporação da nova série ISO 22002-x:2025 em programas de pré-requisitos;
• Alinhamento com os requisitos de benchmark GFSI v2024;
• Reforçar os requisitos para apoiar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS);
• Estrutura mais definida para a divisão das categorias da cadeia de alimentos;
• Mudanças e ajustes editoriais como parte da melhoria contínua.
O período de transição para Organismos de Certificação e Organizações certificadas é de 12 meses; assim, as auditorias na V6 são permitidas até 30 de abril de 2027. Auditorias de atualização da V7 deverão ser realizadas de 1º de maio de 2027 até 30 de abril de 2028.
Nesta atualização os benefícios são:
• Um padrão comum de PPR, com peças adicionais específicas de setor. Isso simplifica a implementação para organizações multisetoriais;
• Requisitos adicionais sobre princípios de design / desenvolvimento de embalagens contribuem para a redução das FLW (Perda e Desperdício de Alimentos (também conhecida como Food Loss Waste) e, assim, apoiam ainda mais os ODS da ONU;
• Mais detalhes no documento do Esquema para melhor compreensão e aplicação.
As principais mudanças foram:
1) Nova série ISO 22002-x
· A versão 7 mudou dos anteriores Programas de Pré-requisito (PPRs), a saber, o BSI PAS (Padrão Público Disponível) e o ISO/TS 22002-x (Especificações Técnicas), para a nova série ISO 22002-x:2025. Essa mudança foi provocada pela reestruturação fundamental e modernização dos requisitos PPRs pela ISO.
· Publicada em julho de 2025, a nova série ISO introduziu um padrão PPR de linha base unificado, ISO 22002-100:2025, que consolida requisitos comuns em toda a cadeia alimentar e reduz duplicidades, variabilidade e complexidade que existiam nos documentos anteriores da ISO/TS.
· A Parte 100 é apoiada por partes específicas de setor vinculadas ao escopo da organização, por exemplo, ISO 22002-1, que foca especificamente na fabricação de alimentos e deve ser aplicada além da Parte 100. Essa estrutura harmonizada oferece requisitos mais claros e consistentes e apoia uma abordagem de auditoria mais globalmente aplicável.
2) Fortalecimento dos requisitos para apoiar as organizações em suas contribuições para o cumprimento dos ODS
· Para apoiar ainda mais a redução de Perda e Desperdício de Alimentos (FLW) e a embalagem sustentável de alimentos, incluímos alguns dos princípios de design da Save Food Packaging na V7. Desenvolvidos pelo Instituto Australiano de Embalagens (AIP) e globalizados pela Organização Mundial de Embalagens (WPO), esses princípios de design são aplicáveis a todas as Organizações FSSC 22000 (Certificadas) envolvidas no design de materiais de embalagem.
3) Requisitos para o auditor
· Os requisitos para qualificações de auditores foram atualizados em conformidade com os novos Requisitos de Benchmarking da GFSI e para harmonizar critérios de competência vinculados a uma divisão mais estruturada das (sub)categorias da cadeia alimentar. Essa abordagem dá ênfase adicional às competências, incluindo o conhecimento de produtos, processos, práticas, leis e regulamentos.
4) O uso da IA Como a IA ajuda na auditoria? – Food Safety Brazil
· O uso da IA na certificação exige uma estrutura de governança que assegure uma aplicação ética, justa e em conformidade, incluindo avaliações de risco, validação, monitoramento e funções claras. Com treinamento adequado, transparência e comunicação com as partes interessadas, a IA é apoio (ver item 9 da parte 4 do esquema).
Mudanças nos requisitos adicionais (parte 2.5 do esquema)
· Maior aplicabilidade em algumas categorias para os requisitos, por exemplo, 2.5.2.d, 2.5.12 e 2.5.18;
· Inclusão de 2 requisitos da lista do BoS anterior, da versão 6: 2.5.1.a (#4) e 2.5.14 (#3);
· Inclusão 2.5.2.d.vi;
· Inclusão do detalhamento esperado para os objetivos para FLW (perdas e desperdícios de alimentos);
· Novo requisito 2.5.13.g. do i ao iv para design e desenvolvimento de embalagens;
· Inclusão da necessidade de prover recursos e do compromisso de ser demonstrável e de fornecer recursos para o requisito de cultura;
· No requisito 2.5.7 sobre PEM (monitoramento ambiental), pelo menos uma vez ao ano deve ser analisado em relação à efetividade e adequabilidade continuada do programa;
· No requisito 2.5.6 sobre PCAL (programa de controle de alergênicos), deve ser efetivamente implementado com eficácia anualmente revisada;
· Maior detalhamento do embasamento usado nas especificações no 2.5.1.d;
Exclusão item 2.5.10.c para categoria FII sobre transporte e entrega para evitar contaminação cruzada.
Minha mensagem sobre esta versão é clara:
Não é só o que você produz — é como você produz que define seu risco. A IA deve apoiar, e não substituir, o julgamento humano.
Atualizem-se!
3 min leituraEm 1º de maio de 2026 (fresquinha) a tão esperada versão 7 do esquema FSSC 22.000 foi publicada na homepage da fundação (veja aqui). Trazemos aqui as principais mudanças da FSSC […]
Responder à pergunta do título (Como a IA ajuda na auditoria?) exige sair da visão limitada de que auditoria é apenas um evento periódico.
A inteligência artificial está reposicionando a auditoria como um processo contínuo, baseado em dados, e não mais como uma fotografia pontual de conformidade e sim um filme atual, de maneira “phygital” (ou “figital”) que é a combinação de físico + digital, ou seja, experiências que integram o mundo real com tecnologias digitais de forma fluida.
Na prática, a IA já começa a atuar na preparação da auditoria, organizando grandes volumes de dados, identificando lacunas e estruturando evidências. Esse movimento acompanha uma transformação maior: a digitalização dos sistemas de gestão está criando novos modelos de auditoria, com impacto direto não apenas nas organizações certificadas, mas também em toda a cadeia de fornecedores.
Esse avanço não é teórico. A própria FSSC 22000 já incorporou o uso de inteligência artificial em decisões estratégicas, como evidenciado na lista de decisão do Board of Stakeholders # 8, de setembro de 2025, que foi incluído na versão 7 para os processos de certificação nos OC’s e nas organizações certificadas (ver item 9 da parte 4 do esquema FSSC v.7). Isso afetará tanto os Organismos de Certificação quanto as empresas certificadas, consolidando a IA como parte integrante dos processos de certificação.
Com o uso crescente de IA, surge uma mudança estrutural: o compartilhamento de informações ao longo da cadeia. Não se trata mais apenas de apresentar certificados válidos. Partes interessadas, especialmente varejistas, querem entender o que está por trás deles — incluindo não conformidades, tendências e riscos.
Isso cria um novo paradigma: a confiança deixa de ser baseada apenas na certificação e passa a ser construída pela transparência dos dados.
No entanto, essa abertura traz um dilema relevante. Até que ponto as informações devem ser compartilhadas? Como equilibrar transparência com confidencialidade e segurança da informação?
A resposta não está em restringir dados, mas em amadurecer a governança sobre eles. É necessário “abrir a cabeça” para um modelo onde:
- mais dados são compartilhados,
- mais análises são realizadas e;
- melhores decisões de risco são tomadas.
Ao mesmo tempo, critérios claros devem definir o que pode ou não ser disponibilizado, garantindo proteção estratégica sem comprometer a confiança do ecossistema.
Apesar de todo o potencial, o uso da IA precisa ser priorizado de forma pragmática. A sequência lógica de implementação é clara:
- primeiro, estruturar a base de dados, padronizando registros — especialmente monitoramento ambiental e dados de processo;
- em seguida, aplicar IA para análise de tendências, onde está o maior ganho real e o retorno mais rápido;
- depois, utilizar IA na preparação de auditorias e checklists inteligentes, reduzindo não conformidades básicas;
- por fim, automatizar relatórios, trazendo eficiência operacional — mas sem confundir isso com melhoria do sistema.
Essa ordem importa. Pular etapas leva a sistemas sofisticados com dados ruins — e decisões piores.
O que vem pela frente: evolução das normas e novas prioridades
Nos próximos dois anos, a evolução das normas e esquemas de certificação deve se concentrar em temas que ampliam o escopo tradicional da segurança de alimentos:
- Integração com ESG;
- Gestão de resíduos, especialmente embalagens;
- Valorização das pessoas e fortalecimento da cultura organizacional;
- Alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS);
- Investimento em digitalização para qualificar a gestão de dados.
Essa agenda reforça que qualidade e segurança de alimentos deixam de ser áreas isoladas e passam a atuar como pilares estratégicos do negócio.
A transformação também traz riscos relevantes. Um dos mais críticos é a escassez de auditores qualificados, impulsionada pela aposentadoria de profissionais experientes. Isso pode comprometer a consistência das auditorias e, consequentemente, a confiança no sistema de certificação.
Além disso, há desafios como:
- Falta de alinhamento entre os diferentes elos da cadeia;
- Visão limitada à indústria, sem considerar o ecossistema completo;
- Sobrecarga e impacto na saúde mental dos profissionais envolvidos.
Ignorar esses fatores compromete não apenas a conformidade, mas a credibilidade de todo o sistema.
Por outro lado, surgem oportunidades importantes. Programas de desenvolvimento voltados para pequenas e médias empresas tendem a ganhar força, elevando o padrão da cadeia como um todo. Da mesma forma, iniciativas para harmonizar critérios entre certificadoras podem aumentar a consistência e a confiança nos processos.
Conclusivamente, além das normas, uma mudança de mentalidade. Mais do que uma evolução normativa, o que está em curso é uma mudança de lógica. A auditoria deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser parte de um sistema maior, orientado por dados, transparência e tomada de decisão baseada em risco.
A IA não substitui o julgamento humano, mas amplia sua capacidade. E as organizações que entenderem isso primeiro não apenas estarão em conformidade, estarão à frente na construção de uma cadeia de alimentos mais confiável, resiliente e alinhada às demandas globais.
Não dá para ficar preso em requisito de checklist que se atualiza demoradamente, vamos para smart standard, nuvem de qualidade e metrológica, certificado de calibração digital, inspeção remota, sensorialmente remoto para predição dos problemas deixando o risco imaterializável, interação de compliance… não dá para tratar o mundo digital de forma analógica! E o consumidor deve ficar melhor informado e mais atento, pois a decisão é humana (“Human in the loop” – HITL)!
3 min leituraResponder à pergunta do título (Como a IA ajuda na auditoria?) exige sair da visão limitada de que auditoria é apenas um evento periódico. A inteligência artificial está reposicionando a […]
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Que o nosso VIII Workshop Food Safety Brazil será em Recife/PE, você já está sabendo, ou se ainda não sabe, leia mais em Home – Food Safety Brazil.
A agenda está recheada de convidados que vão ampliar e transformar a sua visão do problema à prática: Segurança de alimentos sem fronteiras.
Para ajudar os participantes a chegarem a Recife, no Riomar Trade Center, para conversar, interagir e fazer networking, o FSB está lançando um concurso cultural para dar um apoio financeiro!
Leia o regulamento abaixo e saiba como concorrer
1 – Escreva um texto sobre o tema “Do problema à prática: Segurança de alimentos sem fronteiras”. O texto deve ser inédito, e o assunto deve ser relevante para os dias atuais, correlacionado à temática principal. O texto deve ter entre 700 e 2.000 palavras, escrito em Word e seguir a formatação:
a) Fonte: Times New Roman
b) Tamanho (corpo do texto): 12 normal
c) Espaçamento entre linhas: 1,5
d) Em caso de citações, utilizar padrão ABNT
e) Fotos e imagens devem ser autorais ou ter autorização de seus autores para publicação. Também podem ser obtidas de bancos de imagens gratuitas – neste caso, deve ser enviado o link da imagem original.
2 – Serão aceitos textos sem imagens.
3 – Textos plagiados e com ataques a pessoas ou empresas serão desclassificados.
4 – Envie o seu texto para o e-mail vpresidente@foodsafetybrazil.org com o título no campo assunto CONCURSO CULTURAL 2026. Inclua as suas informações de contato (e-mail e telefone) e seu mini-currículo com até 300 caracteres.
5 – Os textos recebidos serão avaliados conforme os critérios de publicação do Food Safety Brazil por um comitê de colunistas (não podem participar do júri candidatos ou pessoas com conflitos de interesse). Esta Comissão Avaliadora analisará os textos a partir dos seguintes critérios:
a) Relevância do tema para a segurança de alimentos;
b) Utilidade para o leitor;
c) Clareza e coesão do texto.
d) Autenticidade.
6- Os autores cujos textos forem aprovados para publicação serão informados por e-mail.
7 – Ao submeter o texto, o candidato automaticamente concorda com os termos desta promoção e autoriza a publicação do conteúdo com os devidos créditos ao autor no Food Safety Brazil em data a ser definida por este, sendo ou não classificado como vencedor.
8 – Todos os textos que não forem desclassificados no item 1 poderão ser publicados na página do nosso website.
9 – O prêmio consiste em isenção de pagamento para uma vaga no “VIII Workshop Food Safety Brazil, e no reembolso* de despesas relacionadas à alimentação, hospedagem e transporte até o valor máximo que, na totalidade, não ultrapasse R$ 2.000,00 (dois mil reais)*.
(*) Reembolso até o valor máximo de R$ 1.500,00 (um mil e quinhentos reais) contemplado por este concurso cultural relacionado a transporte, hospedagem e alimentação mediante comprovação fiscal.
10 – O prêmio é pessoal e intransferível, de forma que sua comercialização ou transferência para terceiros é expressamente proibida, não podendo ser convertido em dinheiro e nem trocado por qualquer outro produto. Em caso de o ganhador não poder usufruir do prêmio na data do evento por qualquer motivo, ele será repassado para o seguinte classificado da lista, por pontuação do comitê avaliador.
11 – Prazo para submissão: serão aceitos textos enviados até 01 de junho de 2026.
12 – Resultado: Será divulgado no blog, na página do blog no Facebook e Instagram no dia 30 de junho de 2026.
Aguardamos seu post. Participe!
Mostre seu talento, compartilhe sua visão e venha fazer parte da comunidade que transforma a segurança de alimentos no Brasil!
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As normas reconhecidas pela Global Food Safety Initiative (GFSI) são claras ao estabelecer que “a alta direção deve demonstrar comprometimento ativo com o Sistema de Gestão de Segurança de Alimentos (SGSA), garantindo recursos, promovendo uma cultura de segurança de alimentos e assegurando que responsabilidades e autoridades estejam definidas e comunicadas”. Além disso, reforçam que a liderança deve ser exemplo, promovendo comportamentos que sustentem essa cultura no dia a dia.
De acordo com os requisitos das normas de segurança de alimentos, a liderança possui responsabilidades e competências para tomar decisões que podem impactar diretamente o SGSA.
No entanto, o que acontece quando a própria liderança é incapaz de agir de forma preventiva, evitando problemas e riscos significativos? Ou quando minimiza situações que podem comprometer a segurança dos alimentos?
Muitas não conformidades têm como causa-raiz falhas nas decisões da liderança, ausência de investimentos adequados ou, em alguns casos, ações voltadas apenas “para inglês ver”, com o objetivo de atender auditorias, sem priorizar de fato a cultura de segurança de alimentos.
Em diversas organizações, ao se analisar as causas-raízes de não conformidades, percebe-se que muitas delas não estão relacionadas diretamente a falhas operacionais. São problemas que poderiam ser evitados, mas que esbarram na autoridade maior — seja um líder de setor, gerente ou até mesmo o diretor da empresa — que, ao invés de apoiar e disponibilizar recursos, os restringe ou ignora o problema, justificando com argumentos como custo elevado ou adiamento de prioridades.
Esse cenário limita equipes que, muitas vezes, estão engajadas e focadas na prevenção e solução de problemas, mas não possuem autonomia ou suporte suficiente para agir. Como consequência, quando as não conformidades se concretizam, a responsabilidade recai sobre aqueles que tinham menor poder de decisão para evitá-las.
Outro ponto crítico é a falta de responsabilidade da liderança. Em muitos casos, não há disposição para assumir as consequências das próprias decisões. E, por mais competente que seja, não existe Equipe de Segurança de Alimentos (ESA) capaz de compensar uma liderança que não está comprometida. Segurança de alimentos não se sustenta com esforços isolados — ela depende, essencialmente, de direcionamento estratégico.
Enquanto a prioridade de muitas lideranças estiver centrada exclusivamente em lucro, volume de produção ou outros objetivos de curto prazo, relegando a segurança de alimentos a segundo plano, a organização estará vulnerável. Mais cedo ou mais tarde, essa negligência se traduzirá em falhas, riscos à saúde do consumidor e prejuízos à reputação da empresa.
Dessa forma, é fundamental que todos os ocupantes de cargos de liderança — incluindo gestores e proprietários — tenham consciência de que suas decisões são determinantes para o sucesso ou fracasso do SGSA. São essas decisões que podem garantir a eficácia do sistema ou comprometer todo o esforço construído pelas equipes.
É possível que você, leitor, esteja se identificando com a realidade aqui descrita. Mas como mudar esse cenário? Um caminho importante é a sensibilização da liderança por meio de dados concretos, indicadores de desempenho, análises de risco e demonstração de impactos financeiros e reputacionais decorrentes de falhas na segurança de alimentos.
Mostrar resultados positivos também é essencial, evidenciando que investir em segurança de alimentos não é custo, mas proteção e valor para o negócio.
Outro ponto relevante é envolver a liderança nas análises críticas e nas discussões de causa-raiz, ampliando a visão de que nem toda não conformidade tem origem operacional. Muitas vezes, decisões estratégicas — como restrição de recursos, adiamento de investimentos ou definição de prioridades — estão diretamente relacionadas à recorrência de problemas. Ao promover esse tipo de reflexão, a área de qualidade deixa de atuar apenas de forma reativa e passa a exercer um papel mais estratégico dentro da organização.
E fica a reflexão: em sua organização, as não conformidades são tratadas apenas como falhas operacionais ou existe espaço para analisar criticamente decisões da liderança que possam estar na origem desses problemas?
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O que acontece quando a luz encontra as fibras musculares?
A carne é, essencialmente, tecido muscular. Esse tecido é composto por fibras altamente organizadas que se agrupam em feixes paralelos. Dentro dessas fibras estão estruturas ainda menores, chamadas miofibrilas, formadas principalmente pelas proteínas actina e miosina, responsáveis pela contração muscular.
Quando um corte de carne é feito, especialmente com faca bem afiada e em superfície fresca, essas fibras ficam expostas em camadas relativamente organizadas. É nesse momento que entra o papel da luz.
Ao atingir essa superfície recém cortada, parte da luz é refletida diretamente, enquanto outra parte penetra nas camadas microscópicas das fibras musculares e sofre interferência ao atravessar diferentes níveis estruturais. Essa combinação de reflexão e interferência cria um fenômeno óptico chamado iridescência, no qual diferentes comprimentos de onda da luz são refletidos de maneira variável dependendo do ângulo de observação.
Esse efeito é relativamente comum em tecidos musculares com estrutura altamente ordenada, especialmente quando o corte expõe superfícies lisas e paralelas das fibras. Em termos simples, não é a carne que muda de cor, é a forma como a luz interage com ela que muda.
Um fenômeno óptico, não microbiológico
Um ponto importante para profissionais da área de alimentos é distinguir fenômenos físicos de alterações relacionadas à deterioração.
A iridescência é um fenômeno óptico, não microbiológico. Ou seja, ela não indica necessariamente crescimento microbiano, deterioração ou risco sanitário. O que está acontecendo é uma interação física entre luz e estrutura muscular.
Fenômenos semelhantes podem ser observados em outros materiais biológicos estruturados, como escamas de peixe, asas de insetos e até em superfícies como madrepérola. Em todos esses casos, a cor percebida depende do ângulo de incidência da luz.
A iridescência pode aparecer tanto em carnes frescas quanto em produtos cárneos processados, especialmente em presuntos e carnes curadas, onde a estrutura muscular permanece relativamente intacta após o processamento.
O papel da umidade na superfície da carne
Outro fator que contribui para esse efeito é a presença de exsudato superficial. Após o corte, a carne libera pequenas quantidades de líquido natural composto principalmente por água, proteínas solúveis e minerais. Esse líquido forma uma película fina sobre a superfície muscular.
Essa película funciona como uma interface óptica adicional, intensificando a reflexão e a dispersão da luz. Em determinadas condições de iluminação, especialmente em ambientes de varejo com luz artificial intensa, esse efeito pode se tornar mais evidente.
Superfícies biológicas úmidas apresentam maior capacidade de reflexão especular, o que pode amplificar fenômenos visuais relacionados à estrutura microscópica do alimento. Na prática, isso significa que uma carne recém cortada, com fibras bem definidas e leve umidade superficial, oferece as condições ideais para que a iridescência apareça.
Por que isso aparece mais em algumas carnes do que em outras?
Nem todas as carnes apresentam esse fenômeno com a mesma intensidade. Isso ocorre porque a iridescência depende diretamente de três fatores principais:
- organização das fibras musculares
- qualidade do corte realizado
- intensidade e tipo de iluminação
Carnes que mantêm estrutura muscular preservada, como cortes bovinos inteiros, tendem a apresentar esse efeito com maior frequência. Já em produtos onde a estrutura muscular foi destruída ou desorganizada, como carne moída ou embutidos emulsificados, o fenômeno praticamente desaparece.
Isso acontece porque a dispersão aleatória das fibras impede que a luz interaja com camadas estruturais paralelas, eliminando a condição necessária para a interferência óptica.
Não confundir com alterações reais de cor
Embora a iridescência seja um fenômeno normal, ela pode ser confundida com alterações de cor associadas à química da mioglobina.
A mioglobina é a principal proteína responsável pela coloração da carne. Dependendo do seu estado químico, ela pode apresentar diferentes tonalidades.
A oximioglobina, por exemplo, está associada à coloração vermelho vivo típica da carne fresca exposta ao oxigênio. Já a metamioglobina pode gerar tonalidades mais escuras ou acastanhadas quando ocorre oxidação da proteína.
De acordo com a AMSA – American Meat Science Association – a alteração química da mioglobina é um dos principais fatores de mudança de cor percebida em carnes armazenadas. No entanto, no caso da iridescência, a proteína não está necessariamente sofrendo alteração química significativa. O que muda é apenas a forma como a luz é refletida pela superfície do músculo.
O impacto da iluminação no varejo
Outro aspecto interessante é o papel da iluminação utilizada nas vitrines de carne. Lâmpadas LED de alta intensidade, cada vez mais comuns em ambientes de varejo, podem aumentar a percepção de iridescência devido à alta definição de luz branca e ao espectro luminoso emitido.
Quando a luz incide de forma lateral ou em ângulos específicos, o efeito óptico pode se tornar mais evidente. Por isso, a iluminação utilizada em vitrines não influencia apenas a aparência estética dos produtos, mas também a forma como certas características naturais da carne são percebidas.
Quando o fenômeno merece atenção
Apesar de ser normalmente inofensivo, a iridescência não deve ser analisada isoladamente. Profissionais de segurança dos alimentos devem sempre avaliar o alimento de forma integrada, considerando outros parâmetros sensoriais e operacionais.
Alterações como odor desagradável, textura pegajosa, mucosidade ou coloração atípica persistente podem indicar deterioração microbiana, independentemente da presença de reflexos iridescentes.
A análise correta depende sempre do conjunto de sinais observados.
Um detalhe que revela a complexidade dos alimentos
Fenômenos como esse mostram algo interessante sobre os alimentos: muitas características que parecem estranhas à primeira vista são, na verdade, resultado da própria complexidade biológica dos tecidos que consumimos.
A carne, longe de ser uma estrutura simples, apresenta uma organização microscópica altamente sofisticada. Quando essa estrutura interage com elementos físicos como luz e umidade, surgem efeitos visuais que muitas vezes surpreendem e entender esses detalhes ajuda a interpretar corretamente o comportamento dos alimentos e evita conclusões precipitadas.
Afinal, na ciência da carne, nem tudo que parece estranho é necessariamente um problema. Às vezes, é apenas a Física mostrando que até um simples corte de carne pode revelar fenômenos surpreendentes quando observado com atenção.
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O recente roubo de 12 toneladas de chocolates KitKat na Europa — cerca de 414 mil unidades — às vésperas da Páscoa, não é apenas um prejuízo financeiro para a Nestlé. Para nós, profissionais da área de qualidade e segurança de alimentos, o episódio é um “estudo de caso” real sobre as fragilidades de Food Fraud e Food Defense.
Quando uma carga desse volume desaparece sem deixar rastros, a pergunta não deve ser apenas “onde está o caminhão?”, mas sim: “o que acontecerá com esse produto antes de chegar ao consumidor?”.
Segundo as diretrizes do GFSI, estamos diante de dois desafios distintos:
- Food Defense (Ameaça Intencional): O roubo de carga é uma quebra da cadeia de custódia. No momento em que o controle sobre o produto é perdido para criminosos, o Plano Food Defense falhou. Não há mais garantia contra sabotagens ou adulterações maliciosas enquanto o produto está em posse de terceiros não autorizados.
- Food Fraud (Motivação Econômica): Essas 414 mil unidades provavelmente entrarão no chamado “mercado clandestino”. Para o GFSI, isso configura fraude pois o produto será vendido fora dos canais oficiais, possivelmente com rótulos alterados, datas de validade adulteradas e, invariavelmente, sem controle de temperatura e higiene durante o armazenamento ilegal.
Onde a mitigação falhou?
Especialistas indicam que o crime envolveu o vazamento de dados logísticos. Isso aponta para falhas em:
- Segurança cibernética e da informação: Quem tinha acesso à rota e ao valor da carga? O compartilhamento de informações com transportadoras terceirizadas é frequentemente o ponto de vazamento.
- Seleção de transportadoras: A subcontratação de fretes sem uma auditoria rigorosa de antecedentes cria janelas de oportunidade para o crime organizado.
- Monitoramento de “pontos cegos”: A incapacidade de rastrear o ponto exato da interceptação sugere que os protocolos de comunicação em tempo real foram neutralizados ou eram insuficientes para a criticidade da carga.
O que aprendemos com este caso para evitar que aconteça em nossa empresa?
- Avaliação de vulnerabilidade logística: Rotas e períodos sazonais (como Páscoa ou Natal) aumentam a atratividade do produto e devem exigir protocolos de segurança reforçados.
- Tecnologia de rastreamento: O uso de iscas eletrônicas escondidas dentro dos paletes (independentes do GPS do caminhão) é uma medida eficaz para localizar cargas desviadas.
- Cultura de Food Defense: Treine a equipe de logística para identificar comportamentos suspeitos e para o manuseio sigiloso de documentos de transporte. O possível vazamento de dados citado no caso KitKat geralmente começa com uma falha humana.
- Rastreabilidade: A ação da Nestlé de usar os códigos de lote para rastrear e barrar a revenda da carga demonstra a eficácia de um plano de rastreabilidade e recall robusto. Em um incidente de Food Defense, a capacidade de identificar rapidamente o lote afetado é a principal linha de contenção após o ataque ter ocorrido. Acionar as autoridades e a polícia imediatamente também é o procedimento de gestão de crise exigido e que foi aplicado neste caso.
Como sua empresa gerencia o risco de roubo e fraude na distribuição?
Mais posts sobre este tema estão aqui e aqui.
Imagem: Guto Macedo
2 min leituraO recente roubo de 12 toneladas de chocolates KitKat na Europa — cerca de 414 mil unidades — às vésperas da Páscoa, não é apenas um prejuízo financeiro para a […]

Fonte: Yasser Mohamed e Kendra Rothbrust de Lima
Em 2018, contamos com um esforço voluntário que permitiu democratizar o acesso ao conteúdo técnico por meio da tradução da 1ª edição. Aquela iniciativa teve impacto real: ampliou o entendimento, fortaleceu práticas e aproximou profissionais que, de outra forma, ficariam à margem de um material essencial.
Agora, com a tradução da 2ª edição (baixe aqui), o valor é ainda maior – olha a tabela comparativa então! Não se trata apenas de converter idioma — trata-se de acelerar a maturidade do setor. A atualização do documento reflete novas abordagens, riscos emergentes e expectativas mais rigorosas da cadeia global de alimentos, especialmente no contexto das discussões recentes apresentadas na conferência da GFSI, em 2026, no Canadá.
Ao tornar esse conteúdo acessível em português, vocês:
- Reduzem a barreira de entendimento técnico;
- Aumentam a velocidade de implementação nas empresas;
- Elevam o nível das discussões profissionais no país, e;
- Contribuem diretamente para a segurança de alimentos e a confiança do consumidor.
Esse tipo de contribuição voluntária não é operacional — é estrutural. Impacta a cultura, decisão e resultado. O acesso foi viabilizado. Agora vem a parte que realmente faz diferença: uso prático.
Este não é um material para “ler e arquivar”. É um guia para provocar revisão, decisão e mudança.
Aqui vai um direcionamento direto de como extrair valor:
- Leia com foco crítico: compare o conteúdo com sua operação atual. Onde você está defasado?
- Leve para o time: transforme pontos-chave em discussão com qualidade, produção e fornecedores.
- Aja rápido no básico: identifique 2–3 melhorias que podem ser implementadas imediatamente.
- Priorize riscos reais: use o documento como lente para enxergar vulnerabilidades que hoje passam despercebidas.
- Integre ao sistema: conecte os aprendizados com HACCP, Food Defense, Food Fraud com a Cultura de Segurança de Alimentos
A diferença entre empresas que evoluem e as que ficam para trás não está no acesso à informação — está na velocidade de uso.
2 min leituraFonte: Yasser Mohamed e Kendra Rothbrust de Lima Em 2018, contamos com um esforço voluntário que permitiu democratizar o acesso ao conteúdo técnico por meio da tradução da 1ª edição. […]
Se não traduzirmos esta imagem em comportamentos, vira só “quadro de parede”. Daí a questão: como virar prática no chão de fábrica e na gestão, sem gerente só cobrando volume e operador pulando etapas?
Os fundamentos da cultura organizacional devem focar a segurança de alimentos explicitamente na missão, com KPIs de diretoria incluindo food safety e não somente custo/produção e ter evidências concretas das decisões de qualidade. Aqui, o pilar Adaptabilidade e Melhoria Contínua, junto com missão, visão e valores da organização, consideram que o desvio gera melhoria, não só correção, com revisão de processo após incidente e indicadores de tendência, não apenas resultado pontual a ser tratado pela “liderança de topo”. Como exemplo, a empresa fraca diz: “produza assim mesmo e depois ajustamos” e o KPI de diretoria é o volume entregue. Já empresa com cultura: pare a linha, ajuste higienização/setup e assuma o atraso.
Sobre pessoas, o treinamento deve ter avaliação real, com operador empoderado que pode parar linha de produção, sem punição; e com a liderança cobrando comportamento, não só resultado. Treinamento baseado em risco real (ex.: contaminação cruzada), simulações práticas (recall, crise, desvio) e avaliação comportamental (não só prova teórica). Cada área tem dono de riscos, não pode ser “a qualidade resolve”. Os desvios têm responsável + prazo + consequência e na auditoria interna com cobrança real (sem “passar pano”).
Para consistência os padrões operacionais seguidos sem variação por turno (funciona igual dia e noite? Auditor presente ou não?), checklists validados e não preenchidos depois e com a mesma regra para todos, inclusive as gerências. A conscientização sobre riscos engloba se o operador sabe “o que pode dar errado aqui”, os pontos críticos visíveis na área e com reuniões diárias rápidas sobre riscos.
O ambiente de trabalho deve ter leiaute que evite cruzamento (cru x pronto), pressão por produção não pode gerar atalhos e recursos disponíveis (EPIs, utensílios, tempo). Se isto tudo não estiver acontecendo, teremos então:
- treinamento sem mudança de comportamento = cultura fraca;
- desvio repetido = sem aprendizado;
- produção manda mais que qualidade = cultura falsa;
- indicador sem ação = gestão decorativa.
Implemente indicadores de cultura como: % desvios recorrentes, tempo de resposta e adesão a procedimentos; Gemba real com a liderança indo à área ver comportamento, tendência de desvios via gráfico mostrando evolução e evidência de decisão difícil que é parar produção por risco.
Que tal podermos dizer e fazer assim:
Em nossa cultura, desvio não é evento a ser corrigido — é gatilho obrigatório de melhoria sistêmica, com decisão sustentada pela liderança e evidência em indicadores de tendência.
Bravo!
2 min leituraSe não traduzirmos esta imagem em comportamentos, vira só “quadro de parede”. Daí a questão: como virar prática no chão de fábrica e na gestão, sem gerente só cobrando volume […]
Você já percebeu que, na indústria, cada vez há mais treinamentos em segurança dos alimentos e… algumas vezes continuamos corrigindo os mesmos desvios?
Boas Práticas de Fabricação são apresentadas, reforçadas, recicladas, integrações são feitas, listas de presença assinadas, conteúdos revisados. Do ponto de vista formal, tudo acontece como deveria. Ainda assim, na rotina, o comportamento insiste em não acompanhar.
O colaborador sabe que precisa higienizar as mãos, sabe como manipular corretamente, já ouviu mais de uma vez muitas informações sobre contaminação cruzada. Mesmo assim, em algum momento, ele adapta, simplifica ou simplesmente não executa a tarefa como foi orientado?
Talvez o problema não esteja na falta de treinamento, nem na qualidade do conteúdo. Pode estar na forma como estamos entendendo o próprio comportamento dentro da operação.
A psicologia organizacional já aponta isso há décadas. Nesse ponto trago uma referência: Kurt Lewin, um dos principais nomes dessa linha. Ele sintetizou uma ideia de forma simples e direta:
O comportamento é função da pessoa e do ambiente.
Essa frase muda completamente a forma de olhar para o problema. Porque, se o comportamento depende não apenas do indivíduo, mas também do ambiente, então não basta treinar melhor, é preciso olhar para o contexto onde esse comportamento acontece.
Na prática, grande parte dos treinamentos ainda parte de uma lógica de transmissão: alguém explica, alguém escuta e espera-se que, a partir disso, o comportamento mude. Porém, no ambiente real da operação, o que prevalece não é o que foi dito, é o que faz sentido dentro da rotina, da pressão e das condições em que o trabalho acontece.
E aqui surge um ponto crítico: segurança de alimentos não é conhecimento declarado, é comportamento repetido, sustentado mesmo quando ninguém está olhando.
- Se o ambiente não favorece esse comportamento, ele não se sustenta.
- Se a rotina empurra para atalhos, o padrão se perde.
- Se o processo não conversa com a realidade, ele deixa de existir na prática.
Por isso, não é raro ver colaboradores que “sabem” exatamente o que fazer, mas não fazem, não por falta de informação, mas porque o ambiente não sustenta a execução daquilo que foi aprendido.
Treinar, nesse cenário, vira um evento, mas segurança de alimentos não acontece em eventos, acontece na rotina.
Talvez seja esse o ponto que precisamos revisitar. Não se trata de treinar mais, nem de treinar melhor, no sentido tradicional. Trata-se de garantir que o ambiente esteja alinhado com aquilo que foi ensinado a ponto de sustentar o comportamento mesmo diante da pressa, da repetição e das adaptações do dia a dia.
Porque, no fim, a pergunta não é se o colaborador participou do treinamento; é se ele consegue agir de forma diferente quando volta para o ambiente onde tudo continua igual.
E talvez seja por isso que, mesmo entendendo o problema, tantas organizações têm dificuldade em mudar esse cenário, como provocava Kurt Lewin:
Se você realmente quer entender algo, tente mudá-lo.
Mudar, nesse caso, vai muito além do conteúdo. Mudar passa, necessariamente, pelo ambiente onde o comportamento acontece.
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