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A gestão de mudanças em processos produtivos sempre traz um risco implícito: alterar parâmetros críticos na linha e só descobrir o impacto após o lote produzido. Na prática, isso significa depender de validações tardias, desvios, retrabalhos, perdas de produto e, em cenários mais graves, riscos à segurança de alimentos.
É exatamente nesse ponto que entram os Gêmeos Digitais (Digital Twins) como uma ferramenta estratégica, não de inovação estética, mas de controle preditivo, pois não se trata de modelos 3D nem simples simulações estáticas, são réplicas virtuais dinâmicas de processos, equipamentos ou sistemas produtivos. A ferramenta é alimentada por:
- Dados operacionais em tempo real (IoT, sensores, SCADA, MES);
- Parâmetros de processo validados;
- Regras físico-químicas, microbiológicas e operacionais;
- Histórico de desvios, falhas e condições críticas.
O resultado é um ambiente virtual onde é possível simular cenários reais de produção, antes de qualquer intervenção física no site.
Tradicionalmente, a segurança de alimentos opera de forma reativa:
- O processo muda;
- O lote é produzido;
- O desvio é identificado depois.
Com os Gêmeos Digitais, o fluxo se inverte:
- A mudança é simulada virtualmente;
- Os riscos são identificados antes;
- O processo real só é ajustado após validação digital.
Em termos de gestão de riscos, isso significa antecipar falhas críticas ao invés de apenas corrigi-las.
Estudos e aplicações industriais mostram que:
- Testes de ajustes de processo em ambiente virtual reduzem falhas críticas em até 40%;
- Há redução significativa de:
- perdas de matéria-prima;
- desvios de processo;
- paradas não planejadas;
- riscos de contaminação cruzada.
Tudo isso sem:
- consumir produto;
- interromper a linha;
- expor consumidores a riscos.
É possível, literalmente, simular 1.000 erros de processo, avaliar 1.000 cenários de contaminação e “perder” 1.000 lotes sem custo real e sem impacto sanitário.
Exemplos de aplicações práticas em Segurança de Alimentos são:
- Simulação de queda de energia;
- Identificação virtual de pontos de estagnação do produto;
- Avaliação do tempo de exposição em zonas de risco microbiológico;
- Ajuste de parâmetros (tempo, fluxo, CIP, reinício);
- Validação digital antes da aplicação real.
Lembrando que muitas empresas sólidas não quebram por grandes falhas, mas por:
- um ajuste mal validado;
- uma mudança não testada;
- um “quase” que virou perda, recall ou não conformidade grave.
Sabe aquele “frio na barriga” da mudança de processo porque transforma a decisão em evidência técnica, não em tentativa? É sobre isto. Mais do que tecnologia, é uma mudança de cultura. O impacto dos Gêmeos Digitais vai além da máquina. Eles transformam a cultura da Segurança de Alimentos de: “descobrir o erro depois” para “provar que o erro não vai acontecer”.
Se a tecnologia para prever falhas já existe, por que ainda aceitamos operar apenas reagindo a elas? Vamos mapear virtualmente um processo para garantir que nenhum erro chegue à mesa do consumidor? Se é previsível, precisa virar padrão.
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A esponja de cozinha é, paradoxalmente, um dos objetos mais utilizados e menos questionados dentro do ambiente doméstico. Mas será que a sua esponja de cozinha pode deixá-lo doente?
Presente diariamente no preparo das refeições e na higienização de utensílios, ela ocupa uma posição estratégica na chamada zona de risco sanitário da cozinha. Justamente por isso, tornou-se alvo de inúmeros estudos científicos ao redor do mundo.
O que a ciência tem demonstrado de forma consistente é que a esponja reúne, em poucos centímetros cúbicos, condições ideais para a sobrevivência e multiplicação de microrganismos patogênicos: umidade constante, resíduos orgânicos, temperatura ambiente e microestruturas porosas que funcionam como verdadeiros abrigos biológicos.
Este artigo analisa, com base científica, por que a esponja de cozinha pode sim representar um risco real à saúde — especialmente quando práticas inadequadas de uso e higienização são adotadas. Estudos demonstram que uma única esponja pode abrigar milhões a bilhões de células bacterianas por centímetro cúbico, incluindo microrganismos indicadores de higiene e patógenos de importância em saúde pública. Entre os mais frequentemente isolados estão:
- Escherichia coli – indicadora de contaminação fecal e associada a diarreias e infecções gastrointestinais;
- Salmonella spp. – importante agente de doenças transmitidas por alimentos (DTA);
- Staphylococcus aureus – capaz de produzir toxinas termoestáveis;
- Coliformes totais e termotolerantes – indicadores clássicos de falhas de higiene;
- Bolores e leveduras – associados à deterioração e risco para populações sensíveis.
A estrutura tridimensional da esponja favorece a formação de biofilmes, comunidades microbianas protegidas por uma matriz extracelular que dificulta a remoção dos microrganismos, mesmo após lavagens superficiais. O maior risco associado à esponja de cozinha não é sua contaminação isolada, mas seu papel como vetor de contaminação cruzada. Quando uma mesma esponja é utilizada para lavar:
- utensílios que tiveram contato com alimentos crus,
- superfícies da pia,
- tábuas de corte,
- pratos prontos para consumo,
Cria-se um fluxo invisível de microrganismos que migram de uma superfície contaminada para outra considerada limpa. Esse processo é silencioso, cumulativo e altamente eficiente. Na prática, isso significa que alimentos seguros podem se tornar perigosos após o preparo, não por falhas na cocção, mas por recontaminação no pós-preparo.
Higienizar resolve? O que a ciência diz sobre os métodos domésticos de limpeza
Diversos métodos caseiros de higienização da esponja foram avaliados experimentalmente. Os resultados mostram que nem todos são igualmente eficazes. Os métodos com maior eficácia comprovada são:
- Imersão em solução clorada (hipoclorito de sódio): apresenta elevada redução microbiana quando realizada corretamente (concentração e tempo adequados).
- Micro-ondas: pode reduzir significativamente a carga bacteriana quando a esponja está úmida e o tempo é controlado.
- Peróxido de hidrogênio: apresenta bom desempenho contra diversos microrganismos.
Já os métodos com eficácia limitada, são os mais comuns praticados por donas de casa:
- Apenas lavar com detergente
- Deixar secar ao ar
- Enxaguar com água quente por curto período
Mesmo os métodos mais eficazes não eliminam completamente o problema, pois os biofilmes e a rápida recontaminação reduzem seu efeito ao longo do tempo. Depois de aprender a limpar a esponja corretamente, a próxima pergunta que fazemos é: com que frequência trocar a esponja?
A literatura científica e recomendações de especialistas convergem para um ponto essencial: a troca frequente é indispensável.
Recomenda-se:
- Trocar a esponja a cada 7 dias, mesmo que não apresente odor ou aparência alterada;
- Utilizar esponjas diferentes para:
- louças e utensílios,
- superfícies da pia,
- limpeza geral da cozinha;
- Nunca utilizar esponjas de cozinha para limpeza de banheiro ou áreas externas.
A aparência limpa não é indicativo de segurança microbiológica. A segurança dos alimentos começa em casa!!! Embora frequentemente associemos segurança dos alimentos a indústrias, restaurantes e serviços de alimentação, a realidade é que uma parcela significativa das DTA tem origem no ambiente doméstico. A esponja de cozinha simboliza bem esse desafio: um item simples, barato e cotidiano, mas que exige consciência sanitária, educação e mudança de comportamento. Adotar práticas corretas com a esponja não é exagero — é prevenção.
A pergunta inicial — sua esponja de cozinha pode deixá-lo doente? — encontra respaldo claro na ciência: sim, pode, quando mal utilizada e mal manejada. Mais do que gerar medo, o conhecimento deve gerar autonomia. Entender os riscos permite decisões melhores, mais seguras e alinhadas com a saúde da família. Segurança dos alimentos não é um conceito distante. Ela começa, silenciosamente, na pia da sua casa.
Referências
CARDOSO, C. L. et al. Avaliação microbiológica de esponjas utilizadas na higienização de utensílios de cozinhas domésticas. Revista Higiene Alimentar.
BUSTAMANTE, L. A., & Ribeiro, L. P. (2021). Análise microbiológica de esponjas domésticas, avaliação do uso e de métodos de desinfecção no município de Leopoldina-MG [Trabalho de Conclusão de Curso, UNIPAC]. Repositório Institucional FUPAC/UNIPAC.
SILVA, Ana Laura da. O perigo de uma esponja de cozinha contaminada, métodos para uma desinfecção eficaz. 2023. 12 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2023.
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Muitas dúvidas surgem quanto ao uso de fumaça líquida (aroma natural de fumaça) em produtos que são tradicionalmente defumados, especialmente os regulamentados pelo MAPA, como produtos cárneos. Em alguns casos, a substituição indevida da defumação natural pela fumaça líquida pode representar uma fraude. Em outros, pode fazer o consumidor entender que está sendo enganado, quando na verdade não está.
O MAPA, como órgão regulamentador dos POA (Produtos de Origem Animal), estabelece os padrões que tais produtos devem atender. Tais informações, em geral, constituem os chamados RTIQ (Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade). Os RTIQ podem ser acessados diretamente no site do MAPA.
Desta forma, a empresa produtora deve garantir que seus produtos atendam características próprias de cada categoria de alimento, relacionadas à composição, aspectos sensoriais e físico-químicos, características produtivas etc. Quando pertinente, também são informadas as condições de defumação – se é obrigatória ou opcional. Para a linguiça, por exemplo, vale a IN n°4/2000, com destaque abaixo:

Uma vez entendido que, para alguns produtos, é permitida ou obrigatória a defumação, o próximo passo é entender como o MAPA regulamenta a defumação propriamente dita.
Esse tema é regulamentado através do RIISPOA (Decreto n°9.013/17 e suas alterações posteriores), como indicado abaixo:

A dúvida surge, em geral, com o termo “defumação a frio”, que muitos entendem ser a fumaça líquida. Entretanto, esse termo refere-se à temperatura e tempo de exposição do produto à fumaça. Em ambos os casos, a fumaça deve ser obtida “pela queima de madeiras não resinosas, secas e duras”. Logo, para o produto ser defumado, é obrigatória sua exposição à fumaça obtida pela queima de madeiras.
O MAPA deixa isso bem claro no Manual de Inspeção de Carnes (pode ser acessado aqui):
Produtos tratados com fumaça líquida ou que recebam aroma de defumado/fumaça e que não passaram pelo processo de defumação não podem ser denominados DEFUMADOS e devem ser denominados “sabor de fumaça” ou “sabor defumado”.
E então, é proibido o uso de fumaça líquida? Não! Entretanto, seu uso também é orientado pelo MAPA.
No guia de produtos cárneos citado anteriormente, é indicado que, no caso de uso de defumação tradicional e fumaça líquida, o termo “DEFUMADO” na denominação do produto pode ser usado quando o produto “somente com a defumação tradicional informada (tempo e temperatura de exposição a fumaça da queima de madeiras) é capaz de adquirir cheiro e sabor característicos de defumado, além de obter a dessecação parcial prevista no art. 289 do Decreto nº 9.013 de 2017 e de ser capaz de promover segurança e vida útil prolongadas”.
O documento ainda complementa:
Caso tenha tal comprovação, mesmo se utilizando de fumaça líquida, o produto poderá ser denominado “defumado”, e desde que também declarada a utilização de aroma de fumaça (ou semelhantes).
Resumindo: a defumação deve ser feita submetendo o produto à fumaça originada da queima de madeiras não resinosas. Tal processo garante propriedades sensoriais e de conservação ao produto. Entretanto, o uso de fumaça líquida também é permitido, desde que a defumação seja comprovadamente eficaz. Caso contrário, ou quando se utiliza apenas a fumaça líquida, o produto deverá ser denominado como “sabor defumado”.
E você, conhecia essas particularidades sobre o uso de fumaça líquida? Conte nos comentários.
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Poucos alimentos evocam tanto o imaginário de frescor e sofisticação quanto as ostras. Servidas sobre gelo, em conchas abertas, são símbolo de prazer gastronômico e de naturalidade.
No entanto, no Brasil, especialmente nas praias, essa aparente simplicidade esconde um risco sanitário significativo. A venda informal de ostras, sem controle de origem, refrigeração ou higiene, representa um significativo ponto de vulnerabilidade da segurança dos alimentos no país.
As ostras são moluscos bivalves filtradores, vivem imersas em água salobra e se alimentam filtrando partículas microscópicas, e nesse processo, elas também acumulam o que houver de indesejado no ambiente, incluindo bactérias, vírus, metais pesados e toxinas.
Por isso, se a água estiver contaminada por esgoto ou resíduos industriais, a ostra torna-se um verdadeiro reservatório biológico de patógenos e metais pesados.
Entre os microrganismos mais associados a esses moluscos estão:
- Vibrio parahaemolyticus: é uma bactéria gram-negativa típica de águas salgadas e mornas, responsável por casos de gastroenterite aguda associada ao consumo de frutos do mar crus, especialmente ostras. Provoca diarreia, cólicas, náusea e febre leve, com duração de dois a três dias. Sua multiplicação é favorecida pela falta de refrigeração e pela ingestão de moluscos malcozidos;
- Vibrio vulnificus: é uma bactéria marinha altamente virulenta, encontrada em ostras e outros frutos do mar. Além de causar diarreia, pode provocar septicemia e necrose cutânea, com taxa de letalidade elevada em pessoas com imunossupressão ou doenças hepáticas. O consumo cru de ostras contaminadas é a principal via de infecção, tornando esse patógeno um dos mais perigosos do gênero Vibrio;
- Vírus da hepatite A (HAV): é transmitido pela via fecal-oral e pode contaminar moluscos cultivados em águas poluídas por esgoto. Ao ser ingerido, causa febre, mal-estar, dor abdominal e icterícia. Embora a maioria dos casos seja autolimitada, pode haver formas graves. A prevenção depende de saneamento básico, vacinação e cocção completa dos alimentos;
- Norovírus: é um dos agentes mais contagiosos de gastroenterite viral no mundo. Bastam de 10 a 100 partículas virais para causar náuseas intensas, vômitos e diarreia. Ostras e mariscos crus são veículos frequentes, pois acumulam o vírus ao filtrar água contaminada. Extremamente resistente e de rápida disseminação, exige rigoroso controle higiênico e térmico para evitar surtos;
- Bactérias do gênero Salmonella: são patógenos entéricos transmitidos por alimentos contaminados com fezes humanas ou animais. Sua presença em ostras indica contaminação fecal recente. Causam diarreia, febre e dor abdominal, podendo evoluir para septicemia. A cocção adequada e boas práticas de manipulação são as principais medidas preventivas;
- Escherichia coli (E. coli): é uma bactéria intestinal que, embora normalmente inofensiva, possui cepas patogênicas capazes de causar doenças. A E. coli enteropatogênica (EPEC) é a mais frequentemente associada a ostras e outros moluscos bivalves, refletindo contaminação fecal das águas de cultivo. Sua presença indica risco de transmissão de outros agentes entéricos. Por isso, o controle microbiológico da água e a certificação da origem são medidas essenciais para garantir a segurança do consumo.
O consumo cru, comum nas praias brasileiras, portanto, potencializa o perigo: sem cocção, os patógenos chegam íntegros ao organismo humano, podendo causar surtos graves.
Casos reais e registros no Brasil
Entre 2001 e 2005, o Brasil registrou diversos surtos de doenças transmitidas por alimentos associados ao consumo de pescado, incluindo ostras e outros mariscos, envolvendo 117.330 pessoas doentes e 64 óbitos.
Em mais da metade desses casos, o agente causador não foi identificado, e em cerca de um terço, o alimento responsável permaneceu desconhecido, evidenciando a subnotificação e a dificuldade de fiscalização. Tudo isso reforça que o consumo de frutos do mar crus em ambientes informais representa um risco significativo à saúde pública.
Embora nem sempre haja rastreabilidade completa, há registros concretos que comprovam o risco:
- Em 2007, em Salvador (BA), o percussionista da Banda Eva passou mal após ingerir ostras cruas na praia de Piatã. Foi hospitalizado em razão de uma infecção grave e acabou falecendo. As circunstâncias apontaram as ostras como o principal veículo da doença;
- Em 2019, no Recife (PE), um empresário consumiu cerca de 14 ostras em uma barraca na praia de Boa Viagem. Dias depois, apresentou sintomas graves, entrou em coma e faleceu. A Secretaria de Saúde investigou o caso, reforçando os alertas sobre os riscos da venda de moluscos crus em locais sem controle sanitário;
- Em 2022, em Fort Lauderdale, Flórida (EUA), um homem faleceu depois de comer ostras cruas em um restaurante, com a investigação da saúde pública relatando que a infecção por Vibrio vulnificus — associada ao consumo de frutos do mar mal cozidos — foi responsável pela doença grave que levou ao óbito.
- Em 2023, no estado de Nova York (EUA), três pessoas morreram e outras foram internadas após infecções severas causadas pela bactéria Vibrio vulnificus, encontrada em ostras cruas consumidas em restaurantes; as autoridades estaduais destacaram a capacidade dessa bactéria de causar doença grave, incluindo necrose de pele, e reforçaram orientações sobre segurança alimentar ao comer frutos do mar crus;
- Em dezembro de 2024, em Helsinque (Finlândia), cerca de 30 pessoas ficaram doentes depois de comerem ostras cruas em restaurantes, com os relatos sendo analisados pela unidade de segurança alimentar local para confirmar se um surto de norovírus foi a causa da intoxicação alimentar;
- Também no fim de 2024, autoridades de saúde em Hong Kong identificaram casos de intoxicação alimentar em consumidores de ostras importadas da França e outros países europeus, no qual, ao menos uma pessoa precisou ser hospitalizada após comer ostras cruas em restaurante;
- Em 2025, em Louisiana (EUA), duas pessoas morreram após consumir ostras cruas contaminadas com a bactéria Vibrio vulnificus, conhecida por causar infecções graves no sangue e tecidos. Os óbitos foram confirmados por autoridades de saúde, que relataram vários outros casos de hospitalização ligados aos mesmos frutos do mar; autoridades reforçaram os alertas sobre os riscos de consumo de ostras cruas, especialmente em períodos de águas mais quentes.
Outros estudos reforçam o quadro: análises conduzidas entre 2008 e 2009 na Baía de Todos os Santos (BA) identificaram a presença de Vibrio parahaemolyticus ao longo da cadeia produtiva da ostra Crassostrea rhizophorae, mesmo em criadouros costeiros considerados “naturais”.
Em 2025, uma pesquisa conduzida por instituições brasileiras detectou bactérias multirresistentes e níveis elevados de arsênio em ostras das espécies Crassostrea gigas e Crassostrea brasiliana, coletadas em cinco cidades do litoral de São Paulo e Santa Catarina. O estudo não investigou surtos clínicos, mas evidenciou o risco de contaminação ambiental persistente, um alerta para a falta de fiscalização e de controle sanitário em áreas produtoras.
Falta de rastreabilidade e controle sanitário
Sem rastreabilidade, é impossível saber onde a ostra foi coletada, se está próxima a esgoto ou resíduos, se foi refrigerada corretamente e por quanto tempo. Esse desconhecimento torna o consumo de ostras cruas altamente arriscado, aumentando a chance de contaminação por bactérias, vírus ou toxinas.
A legislação brasileira estabelece que moluscos bivalves destinados ao consumo humano devem possuir rastreabilidade, controle de origem e transporte refrigerado contínuo, em conformidade com a RDC nº 331/2019 da ANVISA, que define os padrões microbiológicos para alimentos, e a Instrução Normativa MAPA nº 53/2020, que regulamenta a produção, manipulação e comercialização de moluscos bivalves vivos. Essas normas garantem que os produtos comercializados sejam seguros, minimizando riscos de contaminação biológica e química.
No entanto, em bancas improvisadas nas praias, é comum encontrar ostras expostas ao sol, sem refrigeração adequada, embaladas de forma inadequada e sem qualquer identificação de procedência, o que aumenta significativamente o risco de contaminação e doenças transmitidas por alimentos.
Essas condições criam um ambiente ideal para proliferação bacteriana, além de inviabilizar qualquer investigação epidemiológica posterior. Sem nota fiscal ou registro do lote, é impossível comprovar a origem ou responsabilizar o produtor em caso de doença.
Riscos químicos e ambientais
Além dos patógenos, ostras de regiões poluídas podem acumular metais pesados como chumbo, mercúrio e arsênio, além de toxinas de algas (biotoxinas marinhas) associadas à síndrome paralítica ou diarreica dos frutos do mar.
Em alguns pontos da costa brasileira, análises laboratoriais já encontraram concentrações desses contaminantes acima dos limites permitidos para consumo humano.
O risco é duplo: químico e biológico, somando-se à falta de controle sobre o ponto de colheita e à exposição inadequada durante a venda.
O elo perdido da vigilância epidemiológica:
Apesar de existirem alertas e estudos de contaminação, os boletins de vigilância epidemiológica brasileiros raramente associam surtos de doenças alimentares diretamente à venda informal de ostras na praia. Isso ocorre por ausência de rastreabilidade, diagnósticos laboratoriais incompletos e subnotificação.
Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, moluscos bivalves são classificados como alimentos de alto risco, e surtos envolvendo o gênero Vibrio são frequentemente registrados, mas com origem nem sempre identificada.
O Brasil, diferentemente de países como EUA ou França, ainda carece de um sistema robusto de monitoramento específico para moluscos marinhos.
O consumo de ostras frescas pode ser uma experiência segura e prazerosa quando o produto vem de fazendas marinhas certificadas, com controle de colheita, tratamento da água e cadeia de frio monitorada.
Entretanto, nas praias, onde a informalidade prevalece, a venda de ostras representa um risco sanitário significativo, ampliado pela falta de fiscalização e pelo desconhecimento do consumidor.
Cuidados ao consumir ostras:
- Prefira ostras certificadas, de origem rastreável e transportadas refrigeradas;
- Evite consumir moluscos crus vendidos por ambulantes ou em bancas improvisadas ou sem identificação de procedência;
- Cozinhe ou branqueie as ostras antes de consumir para reduzir riscos de bactérias, vírus e toxinas;
- Informe-se sobre a procedência do alimento e exija práticas de higiene seguras nos locais de compra.
A educação alimentar e o fortalecimento da vigilância epidemiológica são essenciais para reduzir esse tipo de ameaça. É preciso que o prazer gastronômico venha acompanhado da consciência de que alimento seguro é aquele cuja história pode ser contada, desde o mar até o prato, ficando este artigo como um alerta para o versão que estamos vivendo.
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Lavar o frango cru antes do preparo é uma prática comum em muitas cozinhas brasileiras. O hábito costuma estar associado à ideia de remover sujeiras visíveis, odores ou até microrganismos indesejáveis. À primeira vista, parece uma atitude lógica e cuidadosa. No entanto, quando analisamos essa prática sob a ótica da segurança dos alimentos, a ciência aponta para uma conclusão diferente daquela que o senso comum sugere.
Do ponto de vista microbiológico, o frango cru é um alimento naturalmente associado à presença de microrganismos patogênicos, principalmente Salmonella spp. e Campylobacter spp., além de Escherichia coli em alguns casos. Essas bactérias podem estar presentes na superfície da carne, em cavidades e nos líquidos liberados durante o manuseio. É importante destacar que essa contaminação não significa, necessariamente, falha do produtor, mas sim uma característica do produto cru de origem animal.
Quando o frango cru é lavado em água corrente, ocorre um fenômeno pouco perceptível, mas altamente relevante do ponto de vista sanitário: a dispersão de microrganismos por meio de respingos e aerossóis. A água que entra em contato com a superfície contaminada do frango pode espalhar bactérias para a pia, bancada, torneira, utensílios próximos, esponjas e até outros alimentos que estejam no ambiente. Esse processo aumenta significativamente o risco de contaminação cruzada.
Estudos experimentais demonstram que lavar frango cru não reduz de forma significativa a carga microbiana presente na carne. Em contrapartida, essa prática eleva a probabilidade de espalhamento de patógenos no ambiente de preparo. Por esse motivo, diversas autoridades sanitárias internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, a Food Standards Agency (FSA) do Reino Unido e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), são categóricas ao afirmar que o frango cru não deve ser lavado antes do preparo.
Do ponto de vista da segurança dos alimentos, o único processo capaz de eliminar de forma eficaz os microrganismos patogênicos presentes no frango é a cocção adequada. Temperaturas internas suficientemente altas são responsáveis pela inativação de Salmonella, Campylobacter e outros agentes de doenças transmitidas por alimentos. Lavar o frango, portanto, não apenas é ineficaz, como pode criar um risco adicional ao contaminar superfícies e utensílios que não passarão por tratamento térmico.
É compreensível que muitos consumidores associem a lavagem do frango a uma sensação de maior limpeza. No entanto, segurança dos alimentos não está relacionada à aparência visual, e sim ao controle dos perigos biológicos ao longo do processo de preparo. Substituir práticas baseadas em hábitos culturais por práticas baseadas em evidências científicas é um passo fundamental para a prevenção de doenças transmitidas por alimentos no ambiente doméstico.
Como manipular frango cru com segurança: passo a passo
Embora o frango cru não deva ser lavado, alguns cuidados são essenciais para reduzir o risco de contaminação cruzada durante o preparo.
- Retire o frango da embalagem apenas no momento do preparo e evite colocá-lo em contato com outros alimentos.
- Utilize utensílios exclusivos para o frango cru, como tábuas e facas, preferencialmente identificadas para esse fim.
- Lave bem as mãos com água e sabão antes e após manusear o frango cru.
- Higienize imediatamente superfícies, utensílios e pias que entraram em contato com o frango, utilizando detergente e, quando possível, sanitizante adequado.
- Cozinhe o frango completamente, garantindo que toda a carne atinja temperatura interna segura.
- Evite reutilizar marinadas ou líquidos que tiveram contato com o frango cru, a menos que sejam fervidos antes do uso.
Essas medidas simples são muito mais eficazes para a segurança dos alimentos do que a lavagem da carne em água corrente.
Vale reforçar que o manejo seguro do frango cru não termina na etapa de preparo. O descongelamento também é um ponto crítico do processo. Métodos inadequados, como deixar o frango em temperatura ambiente ou sob água corrente, podem favorecer a multiplicação de microrganismos. Para entender quais são as práticas corretas e baseadas em evidência científica, recomendamos a leitura do artigo sobre descongelamento seguro de alimentos, já publicado aqui no Food Safety Brazil.
Em síntese, à luz das evidências científicas, lavar frango cru não faz sentido do ponto de vista da segurança dos alimentos. Essa prática não reduz a presença de microrganismos patogênicos e ainda aumenta o risco de contaminação cruzada no ambiente de preparo. A prevenção de doenças transmitidas por alimentos depende do controle adequado dos perigos microbiológicos, especialmente por meio de boas práticas de higiene e cocção correta.
Segurança dos alimentos é resultado de decisões informadas e baseadas em ciência, inclusive dentro de casa.
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Com certeza você, leitor, já se deparou com estas três letrinhas: NSF. Mas o que elas significam?
NSF é a sigla de “National Sanitation Foundation”. Trata-se de uma organização internacional independente fundada em 1944 nos EUA, reconhecida mundialmente por desenvolver normas técnicas, realizar certificações e auditorias voltadas à segurança de alimentos, de água e de produtos de consumo.
No nosso mundo da segurança de alimentos, a NSF está muito associada a lubrificantes de grau alimentício. Mas para falar disso é importante entender o programa NonFood Compounds (Compostos Não Alimentícios) da NSF.
Atualmente, a NSF possui 110 categorias para aplicação das certificações / registros de NonFood Compounds, com um total de 676 produtos registrados no Brasil. Cada categoria possui sua diretriz individual que está diretamente ligada à finalidade de uso pretendido do produto na indústria, sendo que os segmentos mais populares são lubrificantes, produtos para tratamento de água e produtos de limpeza.
A relação completa das categorias você pode encontrar aqui.
Em relação a lubrificantes, há 6 categorias:
H1: General – incidental contact
H2: General – no contact
H3: Soluble oils
HX-1: Ingredients for use in H1 Lubricants (incidental contact)
HX-2: Ingredients for use in H2 Lubricants (no contact)
HX-3: Ingredients for use in H3 Lubricants (soluble oils)
Vale dar um destaque maior na diferença entre as categorias H1 e H2.
NSF H1: Essa classificação é indicada para lubrificantes que podem ter contato incidental (não intencional, ocasional e tecnicamente inevitável) com alimentos. Eles são formulados com ingredientes comprovadamente seguros, podendo ser usados em equipamentos e superfícies onde há risco de contato acidental com alimentos e bebidas.
NSF H2: Lubrificantes H2 são usados em áreas onde não existe a possibilidade de contato com alimentos. Estes produtos não contêm ingredientes aprovados para contato alimentar e devem ser aplicados de forma a garantir que não haja risco de contaminação direta ou indireta.
Resumindo: nem todo lubrificante com certificação/registro NSF é de grau alimentício, apenas aqueles certificados/registrados na categoria H1.
Uma curiosidade interessante é que para que um lubrificante possua certificação NSF na categoria H1 é pré-requisito que possua as certificações ISO 21469 (conforme Resolução ANP nº 804/2019) e ISO 9001.
Outra dúvida muito recorrente é sobre a validade do certificado, uma vez que não há indicação.
Primeiramente, é importante ressaltar que não se trata de um certificado, mas sim de uma carta de registro. Esta carta não possui validade, e a única maneira de verificar se o registro está válido é por meio do White Book da NSF (inclusive, neste link você tem acesso ao certificado, digo… à carta de registro, ajudando bastante na gestão de fornecedores). De qualquer forma, as renovações acontecem de forma anual, sempre no início do ano. Esta é uma informação útil para a re-homologação de fornecedores.
Ficou alguma dúvida? Conte nos comentários.
2 min leituraCom certeza você, leitor, já se deparou com estas três letrinhas: NSF. Mas o que elas significam? NSF é a sigla de “National Sanitation Foundation”. Trata-se de uma organização internacional independente […]
Estamos começando 2026, mas será que você está seguindo a legislação de alimentos atualizada?
A Anvisa tem revisado constantemente nossas normas e regulamentos, sendo que a última atualização da biblioteca de alimentos foi publicada no dia 26/12/2025.
Resumindo: praticamente todos os tópicos tiveram novas publicações em 2025, considerando IN, RDC e Guias.
Não podemos esquecer os documentos de perguntas e respostas sobre temas específicos, que também passaram por atualizações. Um exemplo é o de suplementos alimentares.
O guia de determinação de prazo de validade de alimentos teve a versão 3 publicada em 03/04/2025 e impactou muitas empresas.
Se você quer conferir tudo que mudou, acesse aqui, procure por Bibliotecas temáticas e selecione Alimentos. Baixe o arquivo e clique nas indicações das regulamentações para acessar cada documento. Assim você consulta as novas normas e consegue se atualizar para não sofrer nenhuma não conformidade.
Imagem: Andrea Piacquadio
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Foi lançada uma base de dados que reúne os casos de fraudes em alimentos desde 2016, com dados dos relatórios mensais de fraude (JRC Food Fraud Monthly Report).
Esses relatórios podem ser visualizados diretamente no site do Knowledge Centre for Food Fraud and Quality e compilam casos de fraude alimentar registrados na mídia internacional, o que confere grande abrangência às informações.
A partir daí, na Knowledge4Policy (K4P), uma plataforma na Comissão Europeia que facilita a formulação de políticas baseadas em evidências, as informações foram organizadas, gerando um dashboard interativo que reúne quase 10 anos de histórico de fraudes em alimentos.
O acesso à plataforma é livre e pode ser realizado diretamente no site da K4P. Seu uso é bastante intuitivo: assim que acessado o link, podemos escolher entre uma série de opções para apresentação dos resultados:
- Distribuição geográfica de incidentes
- Comparação de entidades geográficas
- Incidência de fraude alimentar por entidade geográfica
- Tipos de fraude alimentar por ano
- Incidência de fraude alimentar por ano
- Principais categorias de alimentos por ano
- Principais tipos de fraude alimentar
- Incidência de fraude alimentar
A título de exemplo, coloquei abaixo uma tela da base “Incidência de fraude alimentar”:

Notem a riqueza de informações e possibilidades de filtros e comandos. Aqui estão selecionados todos os tipos de fraudes, cujas categorias incluem:
- Adulteração do produto
- Falsificação
- Falsificação de documentos
- Mercado cinza
- Erro de descrição/ rotulagem/ marca enganosa
Também é possível selecionar diversas categorias de produtos. Nesse caso, para bebidas alcoólicas, na base do gráfico aparece a descrição dos casos. Você notou a menção ao recente caso de fraude de destilados com metanol?
Enfim, as possibilidades são diversas e podem ser de grande ajuda para as empresas construírem seus programas de combate à fraude alimentar com informações robustas e confiáveis.
Mas atenção! Como qualquer outra base de dados, ela não é exaustiva. Um fator relevante é que a base reúne dados a partir de 2016 somente. Mesmo sendo quase 10 anos de informação, é um curto período considerando que fraudes alimentares ocorrem há bem mais tempo que isso. O uso de outras referências, em adição à da P4K é importante. Outras postagens do blog podem ajudar com isso:
- Ferramentas sobre fraudes em alimentos obtidas de sites seguros
- Como obter informações sobre fraudes em alimentos
- Resumo dos casos de fraude alimentar no mundo em 2023
Espero que essa publicação ajude a construir controles mais robustos e garantir a segurança e qualidade dos alimentos!
2 min leituraFoi lançada uma base de dados que reúne os casos de fraudes em alimentos desde 2016, com dados dos relatórios mensais de fraude (JRC Food Fraud Monthly Report). Esses relatórios […]
A entrevista deste artigo é com Diogo Vitorino da Silva (foto), que é médico veterinário com uma experiência vasta e riquíssima em alimentos, sendo mestre em Saúde Animal, Produção e Meio Ambiente, além de especialista em Defesa Sanitária Animal.
Com mais de 15 anos de atuação na indústria, ele já passou pelas áreas de P&D, Qualidade e Assuntos Regulatórios em frigoríficos de bovinos e suínos. Além disso, é um excelente palestrante, realiza treinamentos corporativos a líderes e equipes, onde dissemina seu conhecimento esbanjando carisma e competência.
Conversar com ele é ter verdadeiras aulas, e quando ele comentou sobre o tema da cannabis, eu de pronto tive a ideia de compartilhar com vocês aqui no Food Safety Brazil. Ele topou na hora e inclusive sugeriu algumas perguntas cirúrgicas, como vocês podem ver na entrevista abaixo.
1- De onde surgiu o insight e o seu interesse para estudar o uso do óleo de cannabis na produção animal e no bem-estar dos animais?
Foi a partir de uma experiência pessoal que surgiu o interesse por discutir o papel da cannabis na produção animal. O convite para conhecer uma associação canábica em Marília, SP, trouxe a oportunidade de acompanhar de perto todo o processo do plantio à colheita e à formulação de medicamentos destinados ao uso humano e animal.
Durante uma conversa com o farmacêutico da associação, veio o insight: se o óleo de cannabis poderia contribuir para o bem-estar humano, por que não explorar seu potencial também para o bem-estar animal? Essa reflexão abre espaço para uma discussão técnica e científica sobre como compostos da cannabis podem ser aplicados na produção animal, seja para reduzir o estresse, melhorar a saúde intestinal ou até mesmo diminuir a necessidade de antimicrobianos.
2- Quais você considera as principais limitações enfrentadas pela pesquisa e aplicação da cannabis na produção animal, incluindo os preconceitos sociais e os desafios regulatórios que ainda precisam ser superados?
O principal ponto a destacar é a questão regulatória, tendo em vista que não há produtos derivados de cannabis aprovados como ingrediente alimentar ou aditivo para animais.
Nos EUA, é proibida a inclusão de THC e CBD (tetrahidrocanabinol e canabidiol) como ingredientes porque são considerados compostos farmacológicos. Isso significa que qualquer uso de cannabis ou canabinoides em rações ou dietas animais ainda carece de regulamentação específica, testes de segurança e aprovação oficial antes de ser recomendado para produção de alimentos.
Outro ponto importante é o obstáculo cultural: o preconceito. Muitas vezes, a cannabis é associada exclusivamente ao uso recreativo, o que gera resistência social e desconfiança por parte de consumidores e até de profissionais da área. Esse estigma dificulta a aceitação de pesquisas sérias e atrasa a adoção de soluções inovadoras.
3- O que as pesquisas de cannabis nos revelam sobre seu uso em animais de produção?
O uso de cannabis na produção animal é uma fronteira promissora, mas deve ser tratada com rigor científico. Não se trata de uma tendência imediata, mas de um campo de estudo que precisa ser explorado com responsabilidade, para garantir segurança, bem-estar animal e transparência ao consumidor.
4- Com todo o seu conhecimento sobre o tema, acha que o uso de cannabis na produção de carnes é viável?
Penso que o uso direto de Cannabis sativa na produção de carne ainda é uma área emergente, com estudos iniciais focados no uso de subprodutos do cânhamo industrial (variedade com baixo teor de THC). Porém, é importante ressaltar que já há pesquisas avaliando o efeito sobre a nutrição, desempenho e bem-estar animal, não tendo aplicações consolidadas e nem regulamentadas para uso direto na produção.
5- Há algum benefício já comprovado do CBD no bem-estar animal?
Estudos experimentais têm indicado que o uso do CBD pode trazer benefícios relacionados ao bem-estar animal em suínos. Portanto, é relevante aprimorar essas pesquisas uma vez que o bem-estar impacta diretamente a qualidade de carcaça e a aceitação do consumidor.
6- Podemos dizer que a cannabis será usada para “produzir carne melhor” no futuro?
Precisamos evoluir com as pesquisas para que possamos afirmar, mas sabemos até o presente momento que os componentes funcionais da cannabis promovem uma melhoria no bem-estar animal e no desempenho nutricional. Mas precisamos comprovar a eficiência, segurança, ausência de resíduos e a viabilidade econômica, sempre sob a luz da legislação.
7- Quais partes da planta têm sido estudadas para uso na alimentação animal?
O farelo e as folhas de cânhamo que são ricos em proteína, fibras e lipídios. Alguns estudos também avaliam o uso de compostos bioativos como o canabidiol (CBD).
8- Pensando em segurança de alimentos, há riscos de resíduos nos produtos finais?
Esse é o principal ponto de atenção. Canabinoides como THC e CBD podem se acumular nos tecidos animais, especialmente se usados de forma contínua ou sem controle.
Temos estudos em cursos investigando resíduos em carne e leite, mas enquanto não houver regulamentação clara e dados robustos sobre segurança, o uso comercial permanece proibido em diversos países.
9- Quais são os efeitos do CBD sobre saúde, bem-estar e desempenho?
Embora a pesquisa em produção de carne ainda seja incipiente, alguns estudos (e análises de especialistas) sugerem que canabinoides como CBD (canabidiol) podem impactar positivamente:
– Apetite e conversão alimentar em suínos, levando a melhor desempenho produtivo (ganho de peso, eficiência alimentar);
– Efeitos calmantes e redução de estresse, o que pode melhorar o bem-estar animal em sistemas intensivos ou durante transporte. Fatores que, por sua vez, influenciam a qualidade final da carne;
– Potencial para melhorar aspectos comportamentais e de bem-estar animal, fatores cada vez mais valorizados pelos mercados consumidores.
10- Para finalizar, qual mensagem você deixaria para o público técnico sobre esse tema?
O uso da cannabis na produção animal é um campo emergente e promissor, mas que ainda está em fase inicial de investigação científica. No entanto, é importante reconhecer que os dados disponíveis ainda são limitados e que não existem produtos aprovados para uso direto em dietas de animais de produção em muitos países. Por isso, qualquer avanço nessa área precisa estar sustentado em pesquisas robustas, regulamentação clara e, sobretudo, na garantia da segurança do alimento e da proteção ao consumidor.
A mensagem que fica é de cautela e esperança: a cannabis pode se tornar uma ferramenta valiosa para uma pecuária mais sustentável e centrada no bem-estar animal, mas o caminho passa necessariamente pela ciência, pela transparência regulatória e pelo diálogo aberto com a sociedade.
Gostaram do tema? Esse é o primeiro artigo sobre uso de cannabis para animais de produção, mas há posts sobre outros usos:
–Segurança de alimentos e cannabis: fabricantes criam normas próprias enquanto as leis não chegam;
– FDA alerta sobre uso do Delta-8 tetraidrocanabinol em alimentos
–Segurança dos alimentos que contém maconha como ingrediente;
Preferências dos consumidores, padrões de consumo e a segurança dos alimentos
Sobre bem-estar animal, acessem aqui, aqui, aqui e aqui.
Imagem: Kindel Media
4 min leituraA entrevista deste artigo é com Diogo Vitorino da Silva (foto), que é médico veterinário com uma experiência vasta e riquíssima em alimentos, sendo mestre em Saúde Animal, Produção e […]
Nesta quarta-feira, dia 28/01/26, atingimos um marco que não é sobre número — é sobre constância, propósito e compromisso com a informação técnica de qualidade: 4.000 conteúdos publicados desde a criação do blog.
Cada post nasceu de uma pergunta real, de um problema de campo, de uma auditoria difícil, de um treinamento desafiador ou de uma norma ou legislação que precisava ser traduzida para a prática.
Esse número representa:
– horas de estudo;
– atualização contínua;
– explorar o complexo ou o básico, dependendo da necessidade;
– diálogos com profissionais da indústria e outras cadeias produtivas e convite à melhoria;
– e principalmente, a crença de que conhecimento técnico compartilhado fortalece sistemas e protege consumidores (nós mesmos).
Não escrevemos para agradar algoritmos. Escrevemos para apoiar decisões. Para provocar reflexão. Para sair do “achismo” e ir para o método.
Obrigada a quem lê, compartilha, questiona, interage e usa esse conteúdo no dia a dia da indústria.
Seguimos firmes: mais ciência, menos improviso. Mais sistema, menos discurso. Seguimos construindo — post a post.
Que venham os próximos milhares de posts ao seu lado, querido leitor!
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É com profundo pesar que o Food Safety Brazil comunica o falecimento de Paulo Eduardo da Rocha Tavares, ocorrido no dia 28 de dezembro de 2025, aos 62 anos. Paulo era engenheiro de alimentos, mestre em Tecnologia de Alimentos pela Unicamp e pesquisador científico do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital-Apta).
Paulo deixa um legado imensurável para a ciência e tecnologia de alimentos no Brasil. Sua atuação no Centro de Tecnologia de Frutas e Hortaliças (Fruthotec) do Ital, com ênfase em desenvolvimento de produtos, descafeinização e processamento de frutas, marcou gerações de profissionais. Participou ativamente da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos (SBCTA) e, mais recentemente, atuava como coordenador nacional adjunto das Câmaras Especializadas de Engenharia Química do Confea e coordenador da CEEQ do Crea-SP.
Para o Food Safety Brazil, Paulo Tavares representa muito mais que um profissional admirável. Foi ele quem viabilizou a realização do nosso VI Workshop Food Safety Brazil em São Paulo, em parceria com o CREA-SP, evento que marcou a história da nossa organização.
Paulo tinha um dom especial para conectar pessoas e grupos com propósitos comuns. Sua facilidade de comunicação, suas inúmeras ideias para pesquisas e sua prestatividade facilitavam o contato entre profissionais e instituições. Era uma pessoa presente, atenta e comprometida, que colocava seu conhecimento técnico e sua escuta qualificada a serviço da comunidade.
Neste momento de dor, expressamos nossas sinceras condolências ao seu irmão Ivan Rocha Tavares Júnior, à sua sobrinha, familiares, amigos e colegas. A contribuição de Paulo Tavares permanecerá viva em cada profissional que ele inspirou, em cada parceria que ele viabilizou e em cada iniciativa que ele apoiou com tanto entusiasmo e dedicação.
Seu exemplo de profissional dedicado, competente e sempre aberto a parcerias e aprendizados seguirá inspirando nossa comunidade. Sentiremos profundamente sua ausência.
Descanse em paz, Paulo. Sua memória e seu legado seguirão conosco.
2 min leituraÉ com profundo pesar que o Food Safety Brazil comunica o falecimento de Paulo Eduardo da Rocha Tavares, ocorrido no dia 28 de dezembro de 2025, aos 62 anos. Paulo […]
Um dos alimentos mais saborosos, desejados e nutritivos originário da região Norte do Brasil, e que se popularizou nacional e internacionalmente — o açaí — veio acompanhado não apenas dos benefícios do seu consumo, mas, infelizmente, do aumento dos registros de fraudes. Essas fraudes consistem em adicionar ingredientes de baixo custo para simular a consistência cremosa e a quantidade de polpa de açaí, visando lucro financeiro.
As formas utilizadas vão desde o inofensivo acréscimo de outros ingredientes alimentares até substâncias tóxicas e perigosas para a saúde humana — muitas vezes desconhecidas pela população, em razão do pouco conhecimento sobre a produção e o beneficiamento da polpa da fruta.
Antes de listar os materiais que os fraudadores geralmente utilizam, é preciso entender a forma de comercialização deste valioso alimento.
Para ser comercializada, a polpa de açaí deve seguir os parâmetros estabelecidos pela legislação. A Instrução Normativa nº 37/2018 (MAPA) determina os parâmetros de identidade e qualidade do suco e da polpa de frutas. Ela pode ser classificada da seguinte forma:
- Polpa de açaí fino (ou popular/Tipo C): Apresenta teor de sólidos totais (conteúdo de açaí) entre 7% e 9%. É a menos densa.
- Polpa de açaí médio (ou regular/Tipo B): Possui teor de sólidos totais entre 11% e 14%, oferecendo densidade e sabor moderados.
- Polpa de açaí grosso (ou especial/Tipo A): Contém teor de sólidos totais acima de 14% (podendo chegar a 40–60 g/100 g em polpas puras) e tem aparência muito densa e sabor intenso.
Levando em consideração que, quanto maior a consistência, maior é o preço cobrado — ou seja, geralmente o açaí grosso é mais valorizado que o açaí fino —, na maioria das vezes a fraude ocorre pela adição de ingredientes que aumentam a consistência.
Além disso, a cor característica do açaí é o roxo violáceo; no entanto, o produto pode apresentar alteração de cor, ficando marrom principalmente devido à oxidação — um processo natural de degradação dos pigmentos (antocianinas) causado pela exposição ao ar (oxigênio), à luz e ao calor. Esse fenômeno indica perda de nutrientes e deterioração do produto.
A seguir, estão os ingredientes já identificados e registrados em denúncias e notificações à Vigilância Sanitária:
- Liga neutra: apesar de ser um ingrediente amplamente utilizado na fabricação de sorvetes, ocorre fraude quando a liga neutra é usada para mascarar diluição, ou seja, para esconder que o produto contém menos açaí do que deveria. Ela é adicionada ao açaí fino para fazê-lo parecer açaí grosso.
- Farinha de mandioca: normalmente a farinha d’água (mais fina) é adicionada ao açaí já batido para engrossar a textura, aumentar o volume sem usar mais fruto e reduzir os custos de produção. Quando hidratada, deixa o açaí mais pastoso e opaco, simulando um açaí mais grosso. É um ingrediente barato e abundante na região Norte e pode enganar consumidores desatentos. Esse tipo de fraude reduz o valor nutricional do açaí e pode gerar contaminação cruzada caso a farinha esteja mal armazenada e ainda mascarar a deterioração do produto.
- Trigo: assim como a farinha de mandioca, o trigo também é usado para engrossar o açaí, embora seja uma prática menos comum. A farinha de trigo fina pode deixar o açaí mais pastoso. Esse tipo de adulteração é perigoso para celíacos (pessoas intolerantes ao glúten), pois o ingrediente é adicionado de forma ilegal e não aparece no rótulo.
- Papel higiênico: o papel higiênico já foi citado em denúncias como uma forma extrema e criminosa de fraude no açaí. Isso ocorre porque o papel é composto de celulose, que ao ser desintegrada em água pode gerar uma textura espessa, tentando imitar a consistência do açaí grosso. Os riscos incluem a introdução de microrganismos patogênicos, resíduos químicos e tintas. Pode causar infecções gastrointestinais, intoxicações e até contaminação fecal.
- Acetona: é um solvente industrial inflamável, tóxico em altas concentrações e proibido em alimentos. É capaz de alterar artificialmente a cor, aumentar a fluidez e simular rendimento de polpas de baixa qualidade. Seu uso pode causar irritação gastrointestinal, intoxicação e danos ao fígado e aos rins, além de risco severo para crianças. Qualquer uso em alimentos é crime sanitário.
- Corante: infelizmente, essa é uma das fraudes mais comuns, pois o consumidor associa cor roxa intensa à qualidade. Quando o produtor possui lotes com coloração inadequada (muito claros, castanhos ou oxidados), pode usar corantes para padronizar tudo como “roxo homogêneo”. Alguns fraudadores adicionam corantes artificiais (roxos ou vermelhos usados em sucos e refrescos) e, em casos mais graves, tintas não alimentícias, para simular a cor natural quando o açaí está diluído, oxidado ou vencido.
- Embalagem: a fraude pode ocorrer pela falsa indicação de teor de sólidos superior ao verdadeiro (ex.: rotular como 14% quando na prática é 8%), pela falsificação de rótulos ou pelo uso de embalagens imitando empresas registradas — como ocorreu em um caso registrado no Mato Grosso, em 2024.
Como identificar se o açaí foi adulterado
- Textura: açaí grosso é cremoso, mas não deve parecer “papa” nem ter consistência de mingau. Textura muito lisa e fina, sem fibras típicas, também indica adulteração.
- Sabor: o açaí legítimo tem sabor característico da fruta. Polpas adulteradas têm sabor e aroma reduzidos.
- Cheiro: cheiro azedo pode indicar mistura com outras substâncias ou início de deterioração.
- Preço: compare valores entre fornecedores. Preços muito abaixo da média são um sinal de alerta.
- Cor: cor excessivamente roxa, muito uniforme ou artificial. Quando diluído em água, deve ficar marrom-arroxeado, e não violeta vivo.
- Rotulagem: rótulos mal impressos, borrados ou sem informações obrigatórias. Marcas muito baratas ou desconhecidas vendidas como “premium” também merecem atenção.
Diante da variedade de fraudes que podem comprometer a qualidade, a segurança e até a saúde do consumidor, torna-se indispensável desenvolver uma postura vigilante ao adquirir e consumir polpas de açaí. A adulteração desse produto representa um risco sanitário e um crime contra o consumidor. Por isso, ao identificar qualquer irregularidade na textura, cor, cheiro, sabor, preço ou rotulagem, é fundamental interromper o consumo imediatamente, registrar evidências como fotos e vídeos e denunciar aos órgãos fiscalizadores, como o PROCON e a Vigilância Sanitária.
Fiquem atentos e alertas: nem tudo é o que parece, especialmente quando se trata de um alimento tão importante e saboroso quanto o açaí.
Leia também:
Os cuidados com a produção do açaí
Food Fraud: a perigosa realidade da fraude de alimentos
Imagem: Nicola Barts
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